Episódio 12 - As três fiandeiras

Os fios do destino – As Moiras
Neste conto dos irmãos Grimm, encontramos uma jovem que não quer fiar e é considerada muito preguiçosa por sua mãe. Sua mãe, irritada com sua recusa, bate nela. Ouvi muitas vezes de meus clientes que, quando estavam na fase de escolher uma profissão, tiveram que seguir aquela que seus pais determinaram. Percebo aqui o mesmo movimento na biografia. No conto, a jovem se recusa a fiar. Ela não quer esse destino imposto.
Ao ouvir o choro da moça, uma rainha que passava pelo local pergunta o que estava acontecendo. Envergonhada de contar que a filha era preguiçosa, a mãe afirma exatamente o contrário; diz que a jovem gostava tanto de fiar que não conseguia fazê-la parar, embora fossem pobres e não tivessem linho suficiente em casa.
A rainha se alegra ao ouvir isso. Leva a moça para o castelo e lhe apresenta três quartos cheios de linho. Se ela conseguisse fiar todo aquele material, poderia se casar com o príncipe. E quis o destino que a rainha passasse justamente por aquele lugar e conduzisse a jovem ao encontro de uma nova etapa de sua vida.
A jovem é afastada da mãe e colocada diante de uma tarefa que não sabe realizar. Ela não sai de casa porque está pronta, fortalecida ou consciente do caminho que deseja seguir. É entregue pela própria mãe, levada pela rainha e lançada em uma situação para a qual não possui recursos. A jovem não reage, não escolhe para onde ir nem encontra forças para recusar. Apenas se deixa levar pelos acontecimentos. Ou se deixa levar pelo destino.
Sozinha diante de uma enorme quantidade de linho, ela chora. Não consegue realizar o trabalho e não vê como escapar da exigência da rainha. Embora tenha surgido de outra maneira, essa exigência a coloca novamente diante do mesmo destino imposto por sua mãe: fiar.
No terceiro dia, olha pela janela e vê três mulheres caminhando em sua direção. A primeira tem um pé muito largo; a segunda, o lábio inferior caído; e a terceira, um polegar muito grande.
As três param diante da janela, perguntam à jovem o que lhe aconteceu e se oferecem para realizar todo o trabalho. Em troca, fazem uma exigência: querem ser convidadas para o casamento, apresentadas como suas parentas e recebidas à mesa, sem que ela demonstre vergonha da aparência delas.
A moça aceita. Ela não sabe quem são aquelas mulheres, de onde vieram nem por que possuem aquelas características. Também não compreende o que a chegada delas poderá representar em sua vida. Apenas aceita a ajuda porque não consegue fiar e não vê outra saída.
As três mulheres entram no quarto e começam o trabalho. Enquanto elas fiam, a jovem permanece diante de um processo que não sabe realizar por si mesma. Pouco a pouco, os três quartos de linho são transformados em fios.
Podemos encontrar nas três fiandeiras uma personificação das Moiras, as forças que, na mitologia grega, tecem os fios do destino humano. Cloto é aquela que fia e inicia o fio da vida; Láquesis mede o fio e determina sua extensão; e Átropos corta o fio da existência. Cada ser humano recebe um fio que pertence à sua própria existência, e nenhuma outra pessoa poderá viver essa trajetória em seu lugar.
Há acontecimentos biográficos dos quais tentamos escapar, mas que retornam de outras maneiras. Podemos receber ajuda, companhia, orientação e cuidado, mas ninguém poderá atravessar determinada experiência por nós. Aquilo que pertence ao destino de uma pessoa precisa ser vivido dentro de sua própria biografia.
A jovem do conto não conhece essas forças. Não sabe que as três mulheres representam as tecelãs de seu destino. Mesmo assim, permite que entrem em sua vida. Ao prometer recebê-las como parentes, oferece-lhes um lugar em sua nova história.
O número três percorre o conto. São três mulheres e três quartos cheios de linho. Pela perspectiva da Biografia Humana, podemos aproximar essa imagem do processo do autonascer, uma travessia relacionada aos retornos dos nodos lunares, que acontecem aproximadamente a cada dezoito anos e meio.
O conto não revela a idade exata da jovem, mas ela já se encontra em idade de casar-se. Simbolicamente, podemos aproximá-la do primeiro retorno dos nodos lunares, por volta dos dezoito anos e meio, quando o jovem começa a se separar mais intensamente da vida conduzida pela família e precisa iniciar uma existência que seja progressivamente sua.
O autonascer não acontece em um único momento. É uma travessia que pode se estender por aproximadamente três anos. Durante esse período, a antiga forma de vida começa a perder sua sustentação, enquanto uma nova ainda está sendo formada.
Nascer pela primeira vez é chegar ao mundo por meio do corpo da mãe. Autonascer é nascer de si mesma. É atravessar uma passagem na qual já não podemos depender apenas daquilo que recebemos dos pais, mas ainda não sabemos plenamente quem somos ou como conduzir a própria vida.
A jovem vive exatamente esse intervalo. A mãe já não a sustenta e, de certa maneira, a entrega ao seu destino. A vida com os pais termina abruptamente, mas ela ainda não possui recursos para construir o próximo movimento da sua biografia. Entre uma condição e outra, as três fiandeiras vêm caminhando em sua direção. O advir de futuro.
Depois que todo o linho é fiado, chega o casamento. A jovem cumpre sua promessa e apresenta as três mulheres como parentas. Elas são recebidas à mesa e passam a fazer parte daquele momento decisivo de sua biografia.
É durante o casamento que o príncipe pergunta por que uma delas tem o pé tão largo, outra o lábio caído e a terceira o polegar tão grande. Cada uma responde que aquela marca surgiu por fiar durante muitos anos.
Ao ouvir as respostas, o príncipe declara que sua esposa jamais voltará a fiar. Ele acredita que poderá protegê-la do mesmo destino das fiandeiras. Pode afastá-la daquele tipo de trabalho e impedir que seu corpo seja deformado pela fiação. No entanto, não pode retirar as fiandeiras de sua vida. Elas já se instalaram no primeiro autonascer da moça
.
A jovem agora é princesa, mas sua biografia não termina no casamento. Ao contrário, uma nova etapa começa. Muitos outros fios do destino ainda serão tecidos. O príncipe pode interromper a fiação visível, mas não tem poder para interromper a tessitura invisível do destino.
Muitos processos de autonascer na biografia humana também começam assim. A vida nos retira de um lugar antes que estejamos preparados, desfaz antigas seguranças e nos coloca diante de algo que ainda não sabemos realizar.
Somente depois de muitos anos podemos olhar para trás e reconhecer que, enquanto não compreendíamos o que acontecia, uma nova experiência de vida estava sendo silenciosamente tecida.
Sua biografia. Sua potência de vida.
Abraços Libertadores!
Roberta Henriette
Créditos:
Conto: “As três fiandeiras”
GRIMM, Jacob; GRIMM, Wilhelm. Contos de fadas: obra completa. Tradução de David Jardim Júnior. 4. ed. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2013. 520 p. (Grandes Obras da Cultura Universal, v. 16).
O conto original dos irmãos Grimm integra o domínio público. A interpretação biográfica apresentada neste episódio é de autoria de Roberta Henriette e faz parte do projeto “Era uma vez… Contos Terapêuticos | Biografia Humana”.
Sua biografia. Sua potência de vida.



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