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Episódio 10 — Chapeuzinho Vermelho | Os 12 sentidos: no corpo, no mundo e no outro

  • Foto do escritor: robertahenriette
    robertahenriette
  • 12 de ago.
  • 6 min de leitura
Mulher sorrindo, com microfone e livros. Ao fundo, castelo e ilustrações místicas. Texto: "Era Uma Vez... Contos Terapêuticos."



À primeira vista, poderíamos dizer que Chapeuzinho Vermelho, dos irmãos Grimm, trata de obediência, maturidade corporal, emoções intensas, sexualidade nascente ou, ainda, de uma advertência aos jovens diante das forças sedutoras.


Mas esse contexto já foi trabalhado no conto de Rapunzel, pela imagem da travessia da infância para a adolescência e da adolescência para a vida adulta. Aqui, o fio que escolho puxar é outro. Quero falar sobre a formação do discernimento como amadurecimento dos sentidos humanos.


Chapeuzinho sabe que está diante de um lobo. Ela o cumprimenta. Portanto, não se trata de uma menina que não vê ou que não ouve. A questão é que ela ainda não sabe reconhecer a qualidade daquilo que vê e ouve.


Ela ouve a palavra do lobo, mas não percebe a qualidade moral daquela palavra.

Ela vê a forma do lobo, mas não reconhece a intenção predatória.

Ela olha os olhos, as orelhas, as mãos e a boca, mas ainda não compreende o conjunto.

Ela está diante dos sinais, mas ainda não sabe lê-los.


Por isso, podemos dizer que ela está vivendo a passagem da percepção para o discernimento. Perceber não é o mesmo que compreender. Ver não é o mesmo que reconhecer. Ouvir não é o mesmo que saber escutar.


Pela perspectiva da Antroposofia, Rudolf Steiner amplia a compreensão dos sentidos humanos. Não somos formados apenas pelos cinco sentidos conhecidos, como visão, audição, tato, paladar e olfato. Steiner fala de doze sentidos, que podem ser compreendidos como portas de relação com o próprio corpo, com o mundo e com o outro.


Os primeiros sentidos estão ligados à experiência do próprio corpo: tato, sentido vital, movimento e equilíbrio. São sentidos de base, que nos ajudam a sentir que temos um corpo, que estamos vivos, que nos movemos e que podemos permanecer de pé no mundo.


O segundo grupo nos coloca em relação com o ambiente: olfato, paladar, visão e sentido térmico. Por meio deles percebemos o mundo ao redor: cheiros, sabores, formas, cores, luz, sombra, frio, calor e a qualidade dos ambientes.


O terceiro grupo nos permite encontrar o outro de maneira mais sutil: audição, sentido da palavra, sentido do pensamento e sentido do Eu. Estes últimos não se limitam a escutar sons. Eles nos ajudam a reconhecer a palavra como portadora de sentido, a perceber o pensamento que vive por trás da fala e a intuir que há um outro Eu diante de nós.


Veja, basicamente, o que são os 12 sentidos na percepção da Antroposofia:

Grupo

Sentido

O que nos ajuda a perceber

Sentidos do corpo

Tato

O limite da pele, o contato, a fronteira entre o meu eu e o mundo.

Sentidos do corpo

Sentido vital

Bem-estar, mal-estar, vitalidade, cansaço, saúde e desgaste.

Sentidos do corpo

Movimento

O próprio movimento, os gestos, a mobilidade e a ação corporal.

Sentidos do corpo

Equilíbrio

A sustentação, a postura, o eixo e a orientação no espaço.

Sentidos do mundo

Olfato

Cheiros, atmosferas e qualidades mais instintivas do ambiente.

Sentidos do mundo

Paladar

Sabores, assimilação, escolha e rejeição do que entra em nós.

Sentidos do mundo

Visão

Formas, cores, luz, sombra, aparência e configuração do mundo.

Sentidos do mundo

Sentido térmico

Calor, frio, temperatura e qualidade térmica dos ambientes e dos encontros.

Sentidos do encontro humano

Audição

Sons, vozes, tons, ritmos e escuta do mundo sonoro.

Sentidos do encontro humano

Sentido da palavra

A palavra como portadora de sentido, não apenas como som.

Sentidos do encontro humano

Sentido do pensamento

O pensamento que vive por trás da palavra dita.

Sentidos do encontro humano

Sentido do Eu

A percepção da individualidade do outro, do Eu que está diante de nós.

Em Chapeuzinho Vermelho, esse caminho dos sentidos aparece de forma muito precisa.


A menina ouve o lobo, mas ainda não distingue a intenção que vive na fala dele. Ela escuta as palavras, mas não reconhece o pensamento que as conduz. O lobo pergunta para onde ela vai, o que leva na cesta, onde mora a avó. Ele conversa, mas sua conversa não é um encontro verdadeiro. É estratégia. Ele não ataca primeiro. Ele conduz.


Esse é um ponto interessante do conto. O lobo não começa pela violência. Começa pela sedução das palavras. Ele se aproxima pela fala, pela curiosidade e pelo convite ao desvio. Mostra o mundo para a menina, a beleza da floresta, chama atenção para as flores e para os pássaros, desperta nela o encantamento pelo entorno e a desvia do foco.


A floresta, aqui, não precisa ser vista apenas como perigo. Ela também é beleza, vida, natureza, mas é a entrada para o mundo. 


A mãe havia dado uma orientação. No início do conto, o caminho ainda vem de fora. É uma recomendação materna. Chapeuzinho deve seguir por ele porque ainda não possui, dentro de si, a maturidade necessária para reconhecer todos os perigos da travessia.


Essa direção é dada porque seu discernimento ainda está em formação. Quando a criança é pequena, o caminho precisa ser protegido pelo adulto. Com o tempo, pela experiência, pelo erro, pelo encontro com o mundo, com o outro e pela elaboração do que foi vivido, esse caminho precisa tornar-se uma força interna a ser conquistada por cada indivíduo.


Há, no conto, três gerações: a mãe, a menina e a avó. A avó pode ser vista como a memória antiga, a ancestralidade, a tradição do aprendizado, a sabedoria feminina que veio antes. Mas, neste momento do conto, essa sabedoria está doente ou, podemos dizer, adormecida. O lobo chega antes da menina, entra na casa da avó e a engole.

Depois, veste suas roupas, deita-se em sua cama e espera Chapeuzinho.


A força predatória entra no espaço da avó, da confiança e da sabedoria dessa tradição. O perigo se disfarça de algo familiar. Por isso, Chapeuzinho estranha, mas ainda não reconhece. Ela percebe partes: orelhas, olhos, mãos e boca. Mas ainda não junta os sinais.


“Que orelhas grandes você tem.”

“Que olhos grandes você tem.”

“Que mãos grandes você tem.”

“Que boca terrível você tem.”


Aqui, o conto nos coloca diante de uma verdadeira pedagogia dos sentidos.

Imagem no conto

Sentido mais direto em Steiner

Camada ampliada no conto

Orelhas

Audição

Ela ouve a voz, mas ainda não reconhece a intenção que vive na fala.

Olhos

Visão

Ela vê a forma, mas ainda não compreende a qualidade da presença diante dela.

Mãos

Tato e movimento

As mãos indicam contato, limite, ação e a possibilidade de agarrar ou tomar posse.

Boca

Paladar e sentido da palavra

A boca reúne palavras e devoração: primeiro o lobo fala, depois engole.

No lobo, a boca também é palavra e devoração. Primeiro ele fala. Depois engole.

Perceba a diferença.


Devoração é apropriação, captura, engolimento e posse. É o movimento do lobo: ele fala para conduzir e depois engole para tomar para si, sem reconhecer o outro.


Devoção é uma entrega consciente, reverente, amorosa e orientada por sentido. Seria a escuta verdadeira, capaz de reconhecer o outro sem se perder de si.


Assim, o conto mostra que os sentidos básicos estão ativos, mas ainda não amadureceram em discernimento. Chapeuzinho percebe, mas ainda não discerne. Está diante dos sinais, mas ainda não sabe lê-los.


Esse é um dos grandes aprendizados biográficos. Muitas vezes, a vida nos dá sinais. O corpo sente. A escuta estranha. O olhar percebe algo fora do lugar. As mãos, que tocam e se aproximam, carregam o desconforto. A boca do outro fala, mas há algo em nós que continua a incomodar. Ainda assim, seguimos.


Chapeuzinho é engolida. Mas ela não é digerida.


A avó também não foi digerida. Ambas permanecem vivas dentro do lobo. O lobo engole, mas não transforma. A barriga do lobo não é um lugar de morte definitiva. É uma imagem de aprisionamento, escuridão e suspensão. Algo vivo permanece ali, esperando ser retirado ou amadurecido.


Então chega o caçador.


Ele vê o lobo deitado na cama e percebe que algo não está certo. Poderia atirar, mas não atira. Em vez disso, abre a barriga do lobo com uma tesoura. Ele cria uma passagem. Permite que aquilo que foi engolido possa sair da escuridão.


O caçador pode ser visto como uma força de consciência ativa em nós, que desperta a possibilidade de saída daquilo que nos capturou.


Mas os irmãos Grimm acrescentam ainda uma segunda parte, e essa segunda parte é fundamental. Chapeuzinho encontra outro lobo na floresta. Mais uma vez, ele tenta desviá-la. Porém, agora, ela se lembra da experiência amarga. Não se deixa conduzir. Caminha diretamente para a casa da avó e conta o que aconteceu.


Aqui o conto muda de nível, pois o caminho para o discernimento já começou a viver dentro dela.


A avó e Chapeuzinho, juntas, elaboram uma estratégia. O lobo tenta entrar pela chaminé, atraído pelo cheiro da comida, mas cai no grande cocho e morre. Agora, a menina e a avó não precisam mais do caçador. A jovem consciência e a sabedoria antiga atuam juntas. 


O discernimento nasce dessa consciência interna que vai se aprimorando pelas experiências vividas, pela construção dos nossos corpos físico, etérico e astral, e pelo amadurecimento dos sentidos no encontro com a vida.


Chapeuzinho Vermelho nos mostra que o discernimento é uma conquista. Ele se forma na travessia, no encontro com o mundo, com o outro, na experiência amarga, no retorno à consciência e na capacidade de aprender.


Sua biografia. Sua potência de vida.


Abraços Libertadores!

Roberta Henriette


 
 
 

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