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Episódio 9 – O Junípero

  • Foto do escritor: robertahenriette
    robertahenriette
  • 29 de jul.
  • 8 min de leitura
Mulher sorrindo, com microfone e livros. Ao fundo, castelo e ilustrações místicas. Texto: "Era Uma Vez... Contos Terapêuticos."



É tempo de pensar com o coração!


Esse conto dos irmãos Grimm é forte, estranho e carregado de muitas simbologias.


Em uma primeira leitura, ele pode causar espanto. Há morte, mentira, ocultamento, alimento de um corpo humano, culpa, canto, árvore, pássaro, presentes e livramento. Mas, como sempre acontece nos contos, nada está ali por acaso.


Em um conto de fadas, podemos ser todos os personagens, os animais, os objetos e tudo o que mais pudermos perceber na narrativa que vão de encontro com nossa biografia podendo nos conscientizar sobre um pensamento, sentimento ou ação. Podemos ser o menino, a menina, o pai, a madrasta, a mãe morta, a árvore, o pássaro que canta, a pedra de moinho, os sapatos vermelhos e a corrente de ouro. O olhar é individual embora também possa trazer uma mensagem para o coletivo.


Hoje, quero olhar para esse conto pelo fio do aprender a pensar com o coração.


Já ouviu falar sobre isso? Pensar com o coração?  É um fio que busca pela verdade e integridade de ser e existir rumo ao futuro e que nos liberta do passado aprisionante.


O conto começa com uma mulher que deseja muito ter um filho. Diante do Junípero, no inverno, ela corta o dedo enquanto descasca uma maçã. O sangue cai sobre a neve, muito próximo à árvore. A imagem nos leva ao vermelho e ao branco, sangue e pureza, vida e morte, desejo e destino, masculino e feminino. 


Ela deseja um filho branco como a neve e vermelho como o sangue. Pela perspectiva da Educação Pré-Natal, essa imagem pode ser compreendida como um desejo que antecede a concepção e prepara interiormente a chegada da criança. Em uma leitura simbólica, o vermelho remete ao sangue menstrual e à dimensão feminina; o branco, ao sêmen e à semente masculina. As duas cores aproximam as forças feminina e masculina que participam do surgimento de uma nova vida. Nesse início, o Junípero já se apresenta como imagem da árvore genealógica daquela família.


O Junípero não é propriamente um pinheiro, mas uma conífera da família dos ciprestes. É uma árvore sempre-verde, resistente e aromática, que produz pequenas estruturas azuladas conhecidas como cones carnosos, por terem aparência de frutos.


Em diferentes tradições populares europeias, o Junípero aparece relacionado à proteção contra forças destrutivas, à purificação e à conservação da vida. Por ser uma árvore sempre-verde, também pode ser considerado o símbolo da fertilidade, do nascimento e da continuidade da existência. No conto, esses significados se ampliam: o Junípero torna-se também um lugar de passagem entre a morte e uma nova forma de vida.


Pela cor azulada, podemos aproximá-las simbolicamente do chakra da garganta, ligado à voz, à expressão e à verdade que precisa encontrar passagem. No conto, essa relação aparece quando o Junípero recebe a mãe morta, acolhe os ossos do menino e, após a transformação, faz surgir a ave que canta e revela aquilo que estava oculto naquela família. 


A ave revela em seu canto um segredo daquela família. Por isso, podemos olhar para o Junípero como imagem da árvore genealógica, da memória ancestral e da passagem entre morte, verdade e renascimento, que se realiza por meio dos descendentes.


Voltando ao conto, o pensamento da madrasta começa a fabricar uma realidade. Ela não olha mais para o menino como uma vida em desenvolvimento e que ela possa contribuir. Passa a vê-lo como obstáculo ao destino da própria filha biológica.


E quando o pensamento se prende à posse, torna-se destrutivo.


A madrasta oferece uma maçã. Mas a fruta não vem como alimento amoroso. Vem como armadilha. A arca se fecha. A tampa cai. O pescoço do menino é cortado. Ele morre.


Quero abrir aqui um breve parêntese para uma questão importante: a não consanguinidade. No conto, o menino é filho biológico do pai, mas não da madrasta. Ele traz consigo a história de sua mãe e de uma linhagem à qual a segunda mulher não pertence.


Essa imagem também pode nos aproximar, guardadas as diferenças, das famílias formadas pela adoção. Todo filho chega com uma história própria; no caso da criança adotada, há também uma ancestralidade biológica anterior à família que a acolhe. Essa ancestralidade pode influenciar ou até determinar seus pensamentos, sentimentos e ações. Precisamos lembrar que ela faz parte de sua biografia desde a concepção.


A não consanguinidade pode trazer desafios, mas também novas possibilidades para a família. Ela convida os pais a reconhecerem uma história que não começou com eles e a aprenderem a acolher o que é familiar e o que é diferente, realinhando o pensamento com o coração.


Perceba que a maçã aparece em dois momentos decisivos. No início do conto, nas mãos da mãe biológica, ela se relaciona ao sangue que cai na neve e antecede a vida do menino. Mais tarde, nas mãos da madrasta, torna-se instrumento de morte. A mesma imagem carrega duas simbologias: vida e morte.


A cabeça separada do corpo é uma imagem forte. Podemos olhá-la como um corte entre o pensar e o sentir. A cabeça, lugar simbólico do pensamento, é atingida por uma ação nascida de um pensar adoecido da madrasta.


Depois disso, a madrasta faz algo ainda mais grave: envolve Marlinchen na mentira.


A menina não mata o irmão, mas é colocada dentro da cena. A mãe conduz a filha para o engano e diz que, caso o menino não lhe dê a maçã, ela deve dar-lhe um “pé de ouvido”. Marlinchen obedece; a cabeça cai, e a mãe a faz acreditar que causou a morte do irmão.


Quantas vezes uma criança é colocada dentro de histórias, dores, segredos e mentiras dos adultos? Quantas vezes filhos carregam culpas que nasceram antes deles? Quantas vezes alguém atravessa a vida acreditando que destruiu algo, quando apenas foi envolvido por uma narrativa familiar distorcida ao longo das épocas culturais?

Marlinchen passa a carregar uma culpa que não é sua.


O nome Marlinchen remete a uma forma diminutiva ligada a Marleen ou Marlene. Marlene nasce da união de Maria e Madalena, trazendo ecos de uma imagem feminina associada ao amor, à elevação e à memória simbólica de Maria Madalena na biografia de Jesus Cristo. Com o sufixo alemão “chen”, o nome passa a significar pequena Marlene. No conto, é essa pequena menina que, mesmo envolvida na mentira da mãe, não endurece. Ela chora, recolhe os ossos do irmão e abre caminho para a transformação. 


Com esse gesto, colocando os ossos sob o Junípero, Marlinchen honra a ancestralidade materna do meio-irmão e devolve dignidade àquilo que foi destruído. E essa é uma das forças mais bonitas do conto.


Marlinchen é filha do pai e da madrasta. Ao recolher os ossos do irmão, reconhece uma verdade que também lhe pertence. Ela carrega o sangue da mãe, que mente e manipula, mas também o sangue do pai, que a une ao menino.


Ela poderia permanecer ligada ao pensamento da mãe. Poderia obedecer no silêncio, esconder os ossos, carregar a culpa e repetir o padrão que a feriu. Mas faz outro movimento. Não argumenta, não acusa, não se revolta. Apenas cuida da verdade.


O Junípero responde. A árvore se movimenta. O fogo aparece. A fumaça se ergue. Do centro dessa transformação surge uma ave. Rudolf Steiner fala da eterização do sangue como parte do processo de transformação do ser humano ao longo da evolução terrestre.


Acrescento a essa imagem uma perspectiva biográfica: essa transformação acontece de geração em geração, por meio dos descendentes de uma árvore genealógica. Gradativamente, eles aprendem a pensar com o coração e a trazer o amor incondicional, mesmo sem conhecer os segredos presentes em sua ancestralidade. São movidos pelo pensar com o coração.


Podemos pensar que o menino morto é liberto e retorna como pássaro. Nessa nova forma que vai além da forma, ele parte em busca de justiça. A verdade encontra uma voz, e essa voz canta. A garganta, antes interrompida pela morte, é simbolicamente restaurada.


O canto organiza o que estava encoberto e a verdade vem à tona. Esse pássaro não acusa. Apenas revela. Vai de lugar em lugar e troca seu canto por três presentes: uma corrente de ouro, um par de sapatos vermelhos e uma pedra de moinho.


É importante perceber que o canto do pássaro não é apenas ouvido, mas verdadeiramente escutado. Todos os que o escutam reconhecem a beleza de um canto que traz consigo a verdade. Em seu percurso, o pássaro compõe uma espécie de tríptico, passando por três lugares e reunindo, em cada um deles, novas pessoas ao redor de sua voz. Esses detalhes não estão no conto por acaso. Cada lugar, cada presente e a parte do corpo em que o presente é carregado, possuem um significado simbólico.


Cada presente encontra seu destinatário.


A corrente de ouro vai para o pai.


Podemos pensar nesse pai como alguém sem percepção do que acontece dentro da própria casa. Está presente, mas não vê. Ama o filho, mas não o protege. Come, elogia, acredita na história contada pela mulher e segue adiante. Permanece inconsciente, ingênuo e inocente diante da verdade, mas sua falta de percepção também o impede de agir.


Como pai das duas crianças que carregam o seu sangue, ele recebe a possibilidade de restaurar o elo ancestral que havia sido rompido. A corrente é colocada em seu pescoço, região situada entre a cabeça e o coração. Torna-se, assim, imagem da ligação entre o pensar e o sentir. O ouro, metal solar, pode representar consciência, valor e calor anímico. Ao receber a corrente, abre-se para o pai a possibilidade de integrar essas forças, o que até então não havia sido possível.


O segundo presente é um par de sapatos vermelhos. Eles vão para Marlinchen.


A menina, que até então chorava sem parar, recebe sapatos que lhe permitem voltar a caminhar. Os pés sustentam o corpo, indicam direção e possibilitam seguir adiante. O vermelho traz vida, calor, coragem e movimento. Também se relaciona simbolicamente com o chakra básico, ligado ao chão da existência, à sustentação e à segurança necessária para viver as experiências com alegria e responsabilidade. Ao calçar os sapatos, Marlinchen pode sair do lugar da culpa e retomar o próprio caminho.


O terceiro presente é a pedra de moinho. Ela cai sobre a cabeça da madrasta.


Se a cabeça é o lugar simbólico do pensamento, a pedra de moinho cai sobre um pensar velho, pesado, limitado, invejoso e ciumento. A pedra que mói encontra aquela que triturou a vida. A madrasta pensou a partir da escassez. Acreditou que o menino tiraria algo de sua filha. Agora, esse pensamento encontra o próprio peso.


A pedra de moinho não atinge o coração da madrasta. Atinge a cabeça. É o encerramento de um modo de pensar que não encontrou caminho de transformação.


Quero enfatizar que, para que algo se metamorfoseie, as forças adversas também têm seu lugar. A madrasta, tão presente nos contos, representa uma dessas forças. Na vida humana, elas podem nos impulsionar para adiante quando conseguimos reconhecê-las, mesmo que façam o coração doer. Reconhecer seu papel no processo não significa justificar o mal, mas compreender o que ele nos convoca a transformar.


Essas forças participam das nossas crises de identidade e autenticidade ao longo de nossa biografia. Elas revelam os lugares em que o pensamento envelheceu, a posse ocupou o lugar do amor, a mentira tomou o espaço da verdade e o coração ainda precisa aprender a pensar.


Quando essas forças são reconhecidas e trabalhadas, algo começa a se mover. Um novo respirar pode atravessar as gerações e alcançar toda a árvore genealógica, não para apagar o que aconteceu, mas para transformar o modo como a vida continua.


E o conto nos deixa uma pergunta:

Que pensamento antigo precisa morrer em mim para que um novo caminho possa nascer a partir do pensar com o coração?


Sua biografia. Sua potência de vida.


Abraços Libertadores!

Roberta Henriette






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