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Episódio 11 - Os Quatro Irmãos Habilidosos | Ar, Água, Fogo e Terra

Foto do escritor: robertahenriette
robertahenriette
26 de ago.
6 min de leitura

Atualizado: 12 de set.

Mulher sorrindo, com microfone e livros. Ao fundo, castelo e ilustrações místicas. Texto: "Era Uma Vez... Contos Terapêuticos."






No conto dos Grimm, conhecido como Os Quatro Irmãos Habilidosos, um pai pobre envia seus quatro filhos ao mundo para que cada um aprenda um ofício. Eles partem juntos, mas logo chegam a uma encruzilhada. Ali se separam e combinam de se reencontrar depois de quatro anos.


Cada irmão segue um caminho e aprende uma habilidade particular. Um torna-se ladrão, capaz de retirar algo sem ser percebido. Outro se torna astrônomo, capaz de ver o que está distante. O terceiro torna-se caçador, com mira certeira. O quarto aprende o ofício de alfaiate, capaz de costurar qualquer coisa, até mesmo o aço.


Não podemos esquecer que o primeiro e o quarto filhos, inicialmente, não querem aprender os ofícios de ladrão e de alfaiate. Percebemos aqui crenças limitantes, julgamentos e a dificuldade de ver além da aparência inicial das coisas, ou seja, de perceber a forma além da forma. Mesmo assim, o destino os coloca diante desses ofícios, profissões ou habilidades.


O que cada irmão aprende, no início, parece ser apenas uma profissão. No decorrer do conto, porém, esse aprendizado se transforma em potência de ação. A habilidade deixa de ser somente uma técnica e passa a servir a uma tarefa maior. Podemos pensar que aquilo que desenvolvemos individualmente, como profissão, capacidade ou habilidade, encontra seu verdadeiro sentido quando é colocado a serviço de algo que ultrapassa o interesse pessoal e nos coloca diante do servir à humanidade, à comunidade, ao país e ao planeta Terra. Na Biografia, essa capacidade amadurecida pode ser compreendida como Faculdade, algo que começa a se revelar gradativamente a partir dos 42 anos, depois de nos tornarmos adultos.


A partir dessa compreensão biográfica, podemos olhar para os quatro irmãos não apenas como profissionais habilidosos, mas como imagens de quatro forças em ação.


Aqui, refiro-me às forças dos quatro elementos: Fogo, Terra, Ar e Água.


Num primeiro momento, podemos correlacionar os quatro elementos com as forças que moldam os temperamentos. A tradição hipocrática, associada a Hipócrates, relaciona saúde e doença ao equilíbrio dos humores corporais. Depois, Aristóteles trabalha os quatro elementos e suas qualidades: quente, frio, seco e úmido, influenciando a visão posterior. Mais tarde, Galeno organiza de forma mais clara os quatro temperamentos: sanguíneo, colérico, melancólico e fleumático. É com essa simbologia que, na Biografia, olhamos para os quatro elementos: Fogo, relacionado ao colérico; Terra, ao melancólico; Ar, ao sanguíneo; e Água, ao fleumático.


Na Antroposofia, essa leitura ganha outro desenvolvimento, ligado também à constituição humana, à educação e ao modo como cada pessoa se relaciona com o mundo.


Poderíamos percorrer, neste conto, o caminho dos temperamentos, pois ele também está presente na forma de agir dos quatro irmãos. Porém, quero ir um pouco além, buscando outro fio biográfico para mostrar a correlação com as Forças Zodiacais, que expressam suas qualidades nos doze signos.

Na tradição astrológica, podemos olhar para os doze signos e perceber que eles se agrupam em quatro elementos: Fogo, Terra, Ar e Água. Cada elemento reúne três signos e expressa uma qualidade própria dessa força elemental.


Vamos pensar na forma além da forma, ampliando o olhar sobre o conto. Podemos dizer que o astrônomo se relaciona ao elemento Ar, ligado aos signos de Gêmeos, Libra e Aquário. O Ar observa, conecta, pensa, reconhece relações e amplia a visão. Gêmeos recolhe informações e percebe sinais. Libra compara, mede, busca proporção e discernimento. Aquário olha de longe e capta o desenho maior, aquilo que pertence ao campo coletivo. No conto, o astrônomo é o primeiro a localizar a princesa. Ele vê onde ela está. Sem essa visão, nenhuma ação poderia começar. O Ar ainda não toca a matéria, não enfrenta o dragão, não recompõe o navio; mas oferece direção. Ele aponta o lugar da alma aprisionada, ou seja, a princesa.


O ladrão pode ser a força do elemento Água, ligado aos signos de Câncer, Escorpião e Peixes. A água se move por vias sutis, contorna, penetra, percebe o que não foi dito. Câncer protege, acolhe e retira do perigo. Escorpião atravessa regiões ocultas, lida com risco, segredo e transformação. Peixes dissolve fronteiras e se move onde formas rígidas não entram. No conto, o ladrão não ataca o dragão. Ele se aproxima em silêncio e retira a princesa sem acordar a ameaça. Sua força não é frontal, mas é sensível, precisa e adaptável. A Água sabe entrar no campo do perigo sem produzir ruptura antes da hora.


O caçador pertence ao elemento Fogo, ligado aos signos de Áries, Leão e Sagitário. O fogo traz impulso, coragem, decisão e direção. Áries inicia o combate e age diante do obstáculo. Leão sustenta a coragem do coração, a presença diante do risco. Sagitário mira ao longe, aponta a flecha, busca o alvo. No conto, o caçador não pode atirar enquanto a princesa está junto ao dragão, pois poderia feri-la. Ele precisa esperar o momento certo. Quando o dragão persegue o navio, a ação do elemento Fogo se torna necessária. O Fogo, quando amadurecido e estável, não é mero impulso; é força dirigida. Ele mata o dragão quando a princesa já foi retirada do campo de perigo.


O alfaiate se relaciona ao elemento Terra, ligado aos signos de Touro, Virgem e Capricórnio. A Terra dá forma, sustenta, preserva, organiza e reconstrói. Touro guarda a substância da vida e sua continuidade. Virgem ajusta, repara, trabalha o detalhe, costura o que se rompeu. Capricórnio estrutura, assume responsabilidade e torna possível o retorno. No conto, o alfaiate recompõe o que foi despedaçado. Ele já havia demonstrado sua arte ao costurar ovos partidos; mais tarde, costura os pedaços do navio para que todos possam voltar ao reino. Sua habilidade mostra que salvar não é apenas retirar do perigo, mas também reconstruir as condições de retorno para a vida.


No movimento do conto, as quatro forças se encadeiam simbolicamente:

O Ar vê.

A Água resgata.

O Fogo enfrenta

A Terra recompõe.

 

Nenhum dos irmãos, sozinho, salvaria a princesa. Cada um tinha uma habilidade específica e necessária.


A princesa, nesse conto, pode ser lida como uma imagem da essência que quer vir ao mundo. Biograficamente falando, ela representa uma Faculdade a ser resgatada. As Faculdades não nascem todas de uma vez. Elas vão se revelando ao longo da vida, especialmente após a crise de autenticidade, a partir dos 42 anos. O dragão guarda, ameaça e aprisiona essa possibilidade, atingindo nosso pensar, sentir e querer. Ele representa a força que captura nossas Faculdades até que possamos resgatá-las, trabalhá-las em consciência e trazê-las à vida. São os impactos da própria vida que nos testam e nos convocam a buscar essas pedras preciosas guardadas pelo dragão.


uma Faculdade não é resgatada por uma única virtude ou habilidade. Ela é resgatada quando as forças se organizam em cooperação. Cada irmão precisou desenvolver sua própria capacidade e amadurecer sua potência para, então, participar da missão comum.


No final, quando retornam com a princesa, surge a disputa. Cada irmão reivindica para si o direito de casar-se com ela. E cada argumento é verdadeiro. O astrônomo diz que, sem ele, ninguém saberia onde a princesa estava. O ladrão afirma que, sem sua arte, ela não teria sido retirada do dragão. O caçador lembra que todos teriam sido destruídos se ele não tivesse matado a fera. O alfaiate mostra que, sem ele, todos teriam morrido no mar.


Todos têm razão e mostram faces da verdade. A verdade aparece nos quatro elementos, assim como nas doze qualidades das Forças Zodiacais. Os irmãos, como imagens de Fogo, Terra, Ar e Água, possuem potencialidades e habilidades individuais, mas, juntos, revelam uma sabedoria ampliada, que vai além da forma estabelecida e pré-concebida.


O rei então decide que nenhum deles se casará com a princesa. Em vez disso, cada um receberá parte do reino. Eles recebem bens materiais, pois representam as forças elementais em ação. O rei impede que uma força individual se aproprie do resultado de uma obra coletiva. Reconhece o mérito de cada habilidade, mas não permite que a princesa, imagem da Faculdade resgatada, se torne prêmio de um só. O trabalho de resgatar uma Faculdade nasce da cooperação, da união e da conexão entre várias forças.


O rei, nesse sentido, pode ser lido como uma imagem de consciência ordenadora. Ele vê o conjunto. Sabe que a princesa foi salva pela ação integrada das quatro forças. Por isso, sua decisão não diminui os irmãos. O que foi salvo não se converte em posse individual, mas em nova responsabilidade perante o mundo e a vida.


Uma Faculdade resgatada pertence ao ser humano e nasce de sua própria essência.

Mas ela não deve permanecer guardada, sem uso, nem voltada apenas para si. Precisa encontrar forma, direção e lugar para ser colocada no mundo e compartilhada como contribuição à vida coletiva.


Sua biografia. Sua potência de vida.


Abraços Libertadores!

Roberta Henriette



Créditos:

Conto: “Os Quatro Irmãos Habilidosos”

GRIMM, Jacob; GRIMM, Wilhelm. Contos de fadas: obra completa. Tradução de David Jardim Júnior. 4. ed. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2013. 520 p. (Grandes Obras da Cultura Universal, v. 16).

O conto original dos irmãos Grimm integra o domínio público. A interpretação biográfica apresentada neste episódio é de autoria de Roberta Henriette e faz parte do projeto “Era uma vez… Contos Terapêuticos | Biografia Humana”.

Sua biografia. Sua potência de vida.


 
 
 

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