Episódio 03 — A menina do tabuleiro negro e branco.
- robertahenriette
- 6 de mai.
- 5 min de leitura

O que fazemos com aquilo que a vida nos deu?
A história de Judit Polgár e o momento de devolver ao mundo o que recebemos.
A história de Judit Polgár poderia ser contada a partir de um conto de fadas moderno, como mencionei no podcast Contos Terapêuticos – Biografia Humana, no Spotify. Mas a história é real.
Judit nasceu em 1976, em Budapeste, em uma Hungria que ainda vivia sob a atmosfera do regime comunista. Seu pai, László Polgár, era um educador húngaro interessado em psicologia da aprendizagem e no desenvolvimento do talento. Ele defendia uma tese provocadora: “gênios não nascem prontos, podem ser formados pela educação.”
Antes mesmo de ter filhos, já estudava esse tema e registrou suas ideias em livros ligados à educação e ao xadrez. Entre eles destaca-se Chess: 5334 Problems, Combinations and Games (1994), um amplo compêndio de exercícios de xadrez utilizado por jogadores de vários níveis, e o livro Nevelj zsenit! (1989), publicado em Budapeste em colaboração com Endre Farkas, no qual apresenta reflexões sobre educação e desenvolvimento de talentos.
Para provar sua teoria, ele decidiu educar suas três filhas de forma diferente da educação tradicional. O experimento pedagógico aconteceu dentro da própria casa. As meninas estudavam intensamente: línguas, matemática, cultura geral… e, principalmente, xadrez. O tabuleiro tornou-se o centro da vida da família. O pai acreditava que o xadrez desenvolvia a mente humana em profundidade: memória, estratégia, visão de futuro e capacidade de decisão.
Naquela época, o xadrez competitivo era considerado um território masculino. Existiam campeonatos femininos, mas raramente mulheres enfrentavam os grandes mestres homens. László Polgár queria provar que uma menina poderia competir com os melhores enxadristas do mundo. E Judit, a mais nova das três irmãs, revelou-se um talento extraordinário.
Desde muito pequena, Judit viveu em um ambiente de intensa disciplina intelectual. Passava horas analisando partidas históricas, treinando estratégias, repetindo movimentos e estudando jogadas complexas. Aos 5 anos, em um de seus primeiros torneios infantis, ela conta que jogou para ganhar um tabuleiro novo. Um prêmio simples, mas simbólico: aqui marcava sua entrada no mundo das competições.
Com apenas 15 anos, em 1991, Judit tornou-se Grande Mestre Internacional, quebrando o recorde que havia pertencido a Bobby Fischer. Curiosamente, Fischer havia afirmado nos anos 1960 que mulheres eram intelectualmente inferiores aos homens no xadrez. Décadas depois, a carreira de Judit responderia a essa afirmação da forma mais elegante possível: jogando.
Durante muitos anos, o maior nome do xadrez mundial foi Garry Kasparov. Quando Judit o enfrentou pela primeira vez, aos 18 anos, perdeu. Vejam o que realmente aconteceu:
Durante a partida entre Garry Kasparov e Judit Polgár, Kasparov pegou um cavalo para realizar um lance, levou a peça a uma casa, mas, percebendo que seria um movimento ruim, acabou soltando o cavalo por uma fração de segundo e, em seguida, mudou o lance, colocando-o em outra casa.
Pelo regulamento do xadrez, conhecido como regra do “toque-move”, ao soltar a peça, o lance deveria ser considerado definitivo e não poderia ser alterado. Uma equipe de televisão espanhola estava filmando a partida, e o vídeo registrou que os dedos de Kasparov realmente soltaram o cavalo, ainda que por um instante muito breve, indicando assim uma violação da regra.
No entanto, após a partida, Kasparov afirmou que não havia soltado a peça (ou que não percebeu), o árbitro não aplicou nenhuma punição e o vídeo não foi divulgado publicamente na época por decisão do patrocinador.
Como consequência, oficialmente nada foi considerado irregular e a vitória permaneceu com Kasparov.
No documentário, fica sugerido que Judith Polgár percebeu, durante a partida, que Kasparov havia cometido uma irregularidade ao soltar a peça e depois alterar o lance, o que viola a regra do “toque-move”. A partir dessa percepção, foi ela quem questionou a situação e solicitou que a equipe de televisão espanhola verificasse as imagens gravadas, buscando esclarecer o ocorrido.
O que prevaleceu não foi a regra do jogo, mas a decisão arbitral. O lance de Garry Kasparov foi mantido, e a partida seguiu sem que a irregularidade fosse corrigida, como se nada tivesse acontecido. Mais do que um detalhe técnico, esse episódio revela uma tensão entre norma e aplicação: a regra existia, mas não foi sustentada na prática, marcando de forma significativa a experiência dolorosa de Judit Polgár naquele encontro.
Mas, histórias que precisam transcender raramente terminam no primeiro impacto, no primeiro encontro com o nosso dragão. Não é mesmo?
Em 2000, aos 24 anos, Judit vive um auto-nascer em sua biografia: sai da casa paterna ao se casar e inicia uma nova etapa de autonomia. Dois anos depois, em 2002, aos 26 anos, no torneio Rússia x Resto do Mundo, Judit Polgár finalmente venceu Kasparov. Foi um momento histórico: pela primeira vez, uma mulher derrotava o maior campeão do xadrez moderno em uma partida oficial.
Mas talvez o mais interessante seja perceber que, naquele momento, Judit já não era apenas a menina do experimento pedagógico. Ela começava a viver suas próprias experiências, para além do legado paterno. Tornou-se mãe aos 28 anos, e seu segundo filho nasceu em 2006, quando ela tinha 30 anos. Além de enxadrista, ela passa também a viver plenamente outras dimensões da vida humana.
Aos 36 anos, Judit cria sua fundação educacional, a Judit Polgar Chess Foundation for Educational Benefits, veja o site: https://www.juditpolgar.com/ , que desenvolve programas educativos para crianças. Ela também idealiza métodos pedagógicos que utilizam o xadrez para estimular o raciocínio lógico, a criatividade, a concentração e a capacidade de resolver problemas.
Aqui, aos 36 anos, acontece um novo auto-nascer: ela coloca no mundo algo que nasce de suas próprias habilidades. Habilidades que foram desenvolvidas com tanta intensidade e até precocemente, desde a infância.
Em 2014, aos 38 anos, anuncia sua aposentadoria do xadrez competitivo. Para muitos, parecia cedo. Mas sua biografia já começava a tomar outro rumo. Nesse período, as habilidades desenvolvidas ao longo da vida tendem a se consolidar até por volta dos 42 anos. É quando o que desenvolvemos ao longo da vida começa a encontrar um caminho de doação ou contribuição para o mundo.
A biografia de Judith é marcada pela precocidade, algo que podemos perceber tanto pelos acontecimentos quanto pelas idades em que os eventos ocorreram. Criada dentro de um experimento pedagógico bastante singular, Judit acabou, anos depois, trilhando seus próprios caminhos na educação, transformando a experiência que recebeu em contribuição para outras gerações.
Biograficamente isso deveria acontecer com todos nós.
O que recebemos no ninho familiar, de uma forma ou de outra, vai se transformando em habilidades únicas e individuais à medida que atravessamos as experiências da vida e lidamos com os impactos que ela nos apresenta.
E, em algum momento da jornada, surge a possibilidade mais bonita de todas: colocar essas habilidades transformadas no mundo como forma de doação.
Aquilo que recebi um dia… agora devolvo ao mundo, transformado pela minha própria consciência, e atualizado pela época cultural em que vivo.
Sua Biografia. Sua Potência de Vida.
Abraços Libertadores!
Roberta Henriette



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