Episódio 01 — Bicho Peludo
- robertahenriette
- 1 de abr.
- 4 min de leitura

A promessa que aprisiona
Quando olhamos para um conto, podemos nos permitir ser todas as personagens ou nos reconhecer apenas em uma ou duas. Muitas vezes, nem sequer nos identificamos com a figura principal. E está tudo bem, pois cada experiência de vida vai nos levar a uma compreensão específica do conto, com aquilo que tem a ver com a minha biografia ou com uma passagem da minha vida à qual estou prestando mais atenção neste momento.
Podemos nos reconhecer no manto peludo, no rei, no cozinheiro e, a partir daí, começam a surgir perguntas que tocam o nosso centro silencioso, adormecido. Algo desperta.
Este conto fala de muitas coisas, e passaríamos o dia inteiro conversando sobre ele. Mas quero chamar a sua atenção para um ponto de vista, ou uma vista de um ponto: as promessas que aprisionam. Promessas que atravessam gerações e, sem percebermos, aprisionam os descendentes de uma família.
Às vezes, precisamos recusar o que nos foi oferecido, nos cobrir, silenciar, atravessar a floresta da vida para crescer e amadurecer, fazendo diferente dos nossos ancestrais. Porém, aprender a honrar suas histórias de vidas, suas escolhas, sem julgamentos.
Observo muito isso quando abro o genograma materno ou paterno em um atendimento biográfico. A árvore genealógica, muitas vezes, não revela apenas nomes e datas. Ela carrega memórias silenciosas de dor, perdas e destinos não elaborados que podem, sem percebermos, aprisionar os descendentes.
Como exemplo, posso citar a repetição de uma profissão escolhida não por vocação, mas por imposição familiar: filhos que seguem o caminho do pai ou da mãe porque “sempre foi assim”, como se a vida não pudesse oferecer outra possibilidade.
Ou ainda, decisões importantes que são bloqueadas pela dificuldade de permitir que o novo, ou o diferente, tenha entrada na família, sustentadas por frases que atravessam gerações. São as lealdades invisíveis que se manifestam na tradição, como:
“Na nossa família sempre fizemos assim, e sempre deu certo.”
“Nessa família nunca houve uma separação.”
E então, os descendentes podem permanecer presos, não por escolha, mas por fidelidade a uma narrativa ancestral. E os que rompem são considerados as “ovelhas negras” da família, já dizia nossa querida Rita Lee. Porém, as “ovelhas negras” são aqueles que mostram um novo caminho para os que vierem depois dele.
O genograma mostra justamente isso: não apenas o que aconteceu, mas aquilo que continua acontecendo dentro de nós como repetição, como promessa, como destino herdado, até que possamos romper e transformar.
Observe que a personagem principal não deixa de honrar seus ancestrais. Ao romper com seu pai, ela leva consigo os três objetos herdados, formando um tríptico: o anel, a roca e o carretel, todos de ouro. Ela carrega o que herdou, além dos cabelos dourados como os da mãe, e entrega ao rei ao colocar os objetos na sopa.
Mas ela somente faz isso depois de usar, durante muitos anos, seu manto feito com peles de todas as espécies de animais. Um manto assim carrega memórias de dor e sofrimento e pode representar o nosso corpo das emoções, aquilo que, na biografia, chamamos de corpo astral.
A metamorfose, ou libertação dessas memórias, acontece muitos anos depois, quando ela utiliza o vestido do Sol, o vestido da Lua e o vestido das Estrelas, participando dos três dias de festa. Aqui surgem novos trípticos: o tríptico dos vestidos e o das três noites de festa.
Vamos descobrindo, devagar e com calma, que um conto sempre traz trípticos para demonstrar que a personagem está pronta para se transformar. E que ela somente tem a possibilidade de se transformar quando passa pelo terceiro movimento.
Na biografia, trabalhamos com os trípticos formados pelos setênios. Um setênio corresponde a sete anos, e um tríptico corresponde a três setênios. Assim, na biografia, um tríptico equivale a vinte e um anos.
Podemos refletir sobre o encontro da princesa com o rei. Nos contos de fadas, quando um rei encontra uma princesa e são felizes para sempre, somos conduzidos a uma imagem profunda: o essencial em nós, o rei, encontra a alma amadurecida, aquela parte interior que, por muito tempo, permaneceu adormecida, a princesa.
Como nos conta o poema Eros e Psiquê, de Fernando Pessoa, em seus trechos mais famosos:
“Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.”
E, ao final, a revelação surpreendente:
“E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.”
Sinto que é justamente isso que os contos nos oferecem: não apenas uma história, mas um espelho. O encontro do rei com a princesa não acontece fora, acontece dentro. Lembra? Somos todos os personagens de um conto.
Geralmente, é nessa fase da vida humana, a fase do encontro do rei com a princesa dentro de cada um, que vamos dando valor ao que realmente importa. Quando começamos a aprender a transformar memórias de dor e sofrimento em perdão, amor, calor e acolhimento.
Eu te encontro no próximo episódio, no Spotify, na próxima semana, para continuarmos caminhando juntos pelos contos e pelas imagens que despertam a nossa própria biografia.
Abraços libertadores!
Roberta Henriette



Um presente te conhecer, e poder ouvir e ler através de tamanha sensibilidade e sabedoria. Parabéns e muito obrigada.