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Episódio 02 — Cinderela

  • Foto do escritor: robertahenriette
    robertahenriette
  • 22 de abr.
  • 3 min de leitura
Mulher sorrindo, com microfone e livros. Ao fundo, castelo e ilustrações místicas. Texto: "Era Uma Vez... Contos Terapêuticos."



A perda, a aveleira e a cegueira da alma


Quando pensamos em Cinderela, muitas vezes nos vêm à mente sapatos de cristal, vestidos e um baile. Mas, no conto original dos irmãos Grimm, existe uma imagem ainda mais profunda, silenciosa, quase escondida, que sustenta toda a história: a aveleira.


Cinderela não pede ao pai um vestido, nem uma joia. Ela pede algo muito simples:


“Traga-me o primeiro galho que tocar seu chapéu no caminho de volta.”


Esse galho é plantado sobre o túmulo de sua mãe. E ali nasce uma árvore.


Na tradição europeia antiga, celta e germânica/nórdica, a aveleira é uma árvore sagrada. Ela simboliza sabedoria antiga, inspiração e conhecimento interior. É uma árvore ligada aos poetas e aos sábios. Seus frutos não surgem imediatamente; ela pede tempo. Assim como o amadurecimento da alma.


A aveleira introduz uma imagem simbólica que surge exatamente no lugar da perda, do luto. Ela nasce da dor, da saudade, da memória. E isso já nos diz algo essencial: aquilo que exige de nós uma privação externa pede, em contrapartida, uma reorganização psíquica que venha nos nutrir, trazendo vitalidade e recursos necessários para atravessar uma experiência inevitável.


Podemos observar, neste conto, os trípticos: Cinderela, por três vezes ao dia, senta-se à sombra da aveleira para chorar e rezar, e algum passarinho sempre satisfaz seu desejo ou a ajuda a atravessar sua metamorfose. O baile oferecido pelo rei tem a duração de três dias, assim como Cinderela precisa de três vestidos. Podemos perceber, pelo processo dos trípticos, que é um caminho do amadurecimento dessa alma feminina.


Cinderela se organiza sempre junto à aveleira. É ali, nesse lugar silencioso, que ela abandona pouco a pouco a posição de inferioridade imposta pelas irmãs. A árvore torna-se um eixo interior: um espaço onde o feminino começa a se recompor, longe da exclusão e da humilhação.


O sapato passa pelos pés das irmãs malvadas e, finalmente, na terceira vez, cabe apenas no pé de Cinderela. Aqui, podemos pensar que os pés humanos carregam uma simbologia de seguir adiante, de nos levar a encontrar o nosso próprio caminho. O sapato serve apenas àquela que está pronta para atravessar uma nova etapa da vida.


É interessante lembrar que, no conto original dos irmãos Grimm, a história não termina apenas com o baile ou com o “felizes para sempre”. O conto revela também o destino daqueles que permaneceram presos à inveja, ao egoísmo e à perversidade.


As duas irmãs malvadas comparecem ao casamento dispostas a adular Cinderela, não por amor, mas por interesse, desejando gozar de sua nova posição e tirar vantagem da proximidade com a futura rainha. Ou seja: querem continuar como são, sem realizar a travessia interior.


É aqui que o conto revela sua face mais dura: aquilo que permanece na sombra da alma acaba perdendo a visão.


Quando o casal de noivos entra na igreja, a irmã mais velha se coloca à direita e a mais moça à esquerda. Então, os pombos, mensageiros simbólicos do destino, da verdade e da liberdade, arrancam um olho de cada uma.


Mais tarde, quando os noivos saem do altar, as posições se invertem: a irmã mais velha está à esquerda e a mais nova à direita. E, novamente, os pombos arrancam o outro olho de cada uma.


Elas são castigadas não por um simples erro, mas pela permanência na cegueira da alma: pela inveja, pela perversidade, pela recusa em amadurecer.


Lembremo-nos de que, num conto de fadas, somos todos os personagens. O que será que ainda não foi metamorfoseado na própria Cinderela? Observemos o tríptico das irmãs! Irmãs de mesmo pai, mas de mães diferentes.


Biograficamente, essa imagem é poderosa. O conto nos mostra que há uma cegueira que nasce quando não conseguimos suportar o florescimento do outro. Quando tentamos nos aproximar das pessoas apenas para tomar, usar ou controlar, e assim, perdemos justamente aquilo que nos permitiria ver: o bom, o belo e o verdadeiro.


Assim, Cinderela é a história de uma transformação profunda da individualidade. E aqui ela nos mostra que nem tudo ainda foi possível transformar. Ainda existem processos sendo carregados, presos à repetição da sombra. A cegueira da alma.


Cinderela não se casa com um rei, mas com um príncipe. Perceberam isso? 


Lembre-se, é preciso ouvir ou ler várias vezes um conto, sem pressa, devagar e com calma para que a digestão e o despertar biográfico aconteça a partir do nosso centro individual. Muitas outras percepções podem surgir a partir de você. Aqui, eu estou apenas puxando um fio do que já foi trabalhado em consultório no processo da Biografia Humana.


Eu te encontro no próximo episódio, no Spotify, na próxima semana, para continuarmos caminhando juntos pelos contos e pelas imagens que despertam a nossa própria biografia. 


Sua biografia. Sua potência de vida.


Abraços libertadores!

Roberta Henriette




 
 
 

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