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Episódio 07 — O Pescador e sua Mulher

  • Foto do escritor: robertahenriette
    robertahenriette
  • há 5 dias
  • 5 min de leitura
Mulher sorrindo, com microfone e livros. Ao fundo, castelo e ilustrações místicas. Texto: "Era Uma Vez... Contos Terapêuticos."



O Pescador e sua Mulher


Escolha, ação e vontade própria


À primeira vista, poderíamos dizer que se trata de uma história sobre ambição, ganância ou insatisfação. Mas, se puxarmos um outro fio, encontraremos a perda da vontade própria.


O fio que escolho puxar aqui é o fio do pescador, esse homem que percebe, sente, teme, envergonha-se, mas não consegue dizer não.


O conto começa junto ao mar. O pescador vive com sua mulher numa cabana miserável. Todos os dias ele vai pescar e permanece sentado, diante da água clara, contemplando o mar. Há, nesse início, uma imagem de simplicidade, pobreza e repetição. O pescador está junto à natureza e ao ritmo das águas. Ele não parece um homem de grandes desejos e está ligado a um certo compasso natural de viver.


Até que, um dia, ele pesca um linguado. Mas não se trata de um peixe comum. O linguado fala. Diz que é um príncipe encantado e pede para viver. O pescador, ouve o linguado e não o mata. Reconhece algo que não pode ser reduzido a alimento, lucro ou posse. Solta o peixe de volta à água.


Esse gesto nos mostra que o pescador carrega uma essência individual. Ele fez uma escolha, não negociou com o mistério. Simplesmente devolve à vida aquilo que se revelou vivo. Mas, ao voltar para casa, sua mulher o questiona. Por que ele não pediu nada em troca?


A partir desse momento, algo se desloca. O encontro com o encantado, que poderia permanecer como uma experiência de reverência, como acontece em vários outros contos, é imediatamente transformado em oportunidade de ganho. A mulher não vê apenas o milagre, mas a possibilidade de obter algo. E o pescador, mesmo sem querer, volta ao mar.


Aqui surgem as frases mais interessantes do conto: o chamado do pescador ao linguado. Ele diz que sua mulher quer, e quer que ele também queira. O problema não está apenas no desejo dela. Está no fato de que o desejo dela começa a ocupar também o lugar da vontade dele. Ele não tem e não desenvolve vontade própria.


Quero chamar a atenção para dois pontos:

Primeiro: na Antroposofia e na Biografia Humana, a vontade está ligada ao metabolismo, ou seja, a todos os órgãos que estão do diafragma para baixo, bem como aos braços, mãos, pernas e pés.


Segundo: o metabolismo é um processo inconsciente para todos nós. Não sentimos, nem observamos ou damos comando para os nossos órgãos realizarem o processamento do que comemos ou ingerimos e, depois, expelimos, pois tudo se processa de forma que não percebemos. Apenas reconhecemos os sinais que o corpo revela quando precisamos usar o banheiro. É aqui que precisamos educar a nossa vontade, tanto no excesso quanto na escassez do que ingerimos. É preciso achar o equilíbrio, senão consequências acontecerão.


O metabolismo está ligado às nossas ações no mundo, às nossas escolhas. Podemos, então, perceber as ações do pescador, bem como as ações de sua mulher.


O pescador não quer pedir, sente vergonha e percebe o abuso. Ele sabe que há algo errado. Mas vai. E assim começa a escalada dos desejos.


Primeiro, a mulher deseja uma cabana melhor. Depois, um castelo. Depois, quer ser rainha. Depois, imperatriz. Depois, papa. Por fim, quer ser igual a Deus. Mas é importante observar que não há conquista nesse percurso. Não há trabalho, travessia, amadurecimento, responsabilidade ou luta interior. Não há caminhada para a vida. Há apenas desejo.


O conto não fala de um ser humano que cresce por esforço, mérito ou transformação. Fala de um ser humano que deseja receber sem se transformar. O desejo cresce, mas o ser humano e sua alma não crescem juntos. 


Por isso, cada novo pedido não traz repouso, nem favorece o amadurecimento. O que vem de fora não coloca ordem no que está desorganizado por dentro. E sua essência não vai além disso. O linguado e o mar percebem isso.


Um dos elementos mais belos do conto é que a natureza acompanha a desmedida humana. No início, a água está clara. Depois, torna-se verde e amarela. Em seguida, agita-se. Mais tarde, escurece. O vento aumenta. As ondas se tornam furiosas. O céu se fecha. A tempestade desaba. A natureza se torna espelho da alma.


Aquilo que não é elaborado interiormente aparece no mundo como alteração da paisagem. É o metabolismo que expliquei anteriormente. O mar pode ser a imagem do inconsciente e vai se tornando cada vez mais sombrio à medida que o desejo perde o bom senso. O que antes era água contemplada passa a ser força ameaçadora. O mundo externo revela a perturbação interna. Parece tão contemporâneo esse conto, com o que temos visto acontecer no planeta pela falta de consciência humana, nas guerras, na posse e no poder, não é mesmo?


Mas o pescador vê tudo isso. Ele percebe a mudança das águas. Sente medo. Sente vergonha. Reconhece o absurdo dos pedidos. Em alguns momentos, quase não consegue caminhar até a praia. Ele tem consciência. Mas não têm força do metabolismo, da ação, para mudar isso. O ponto doloroso do conto é saber que ter consciência não significa, necessariamente, ter vontade para fazer mudanças. Não há força de vontade.


Muitas vezes, sabemos que algo está errado e que estamos sendo arrastados. Mas, ainda assim, vamos. Obedecemos. Cedemos. E toda vez retornamos ao mesmo lugar.


A perda da vontade própria nem sempre acontece por violência explícita. Às vezes, ela pode acontecer por medo do conflito, culpa, hábito, dependência afetiva ou sobrevivência. O ser humano pode não sustentar o limite por não querer decepcionar. Talvez por acreditar que amor significa atender o outro, sempre. E isso eu já vi em alguns atendimentos biográficos. Quando se sustenta o desejo do outro, podemos nos tornar instrumento da desmedida humana e, por vezes, ficamos destruídos em nossa própria vontade e biografia.


O desejo é parte da vida. Desejar uma morada melhor, uma vida mais digna, um lugar mais amplo para existir, tudo isso pode ser legítimo. Mas o conto nos adverte sobre o desejo que perde o vínculo com a alma, que não amadurece em vontade, não passa pela responsabilidade nem pelo limite.


Interessante observar que, neste conto, o peixe não foi desencantado, não voltou a ser príncipe. Ele não é rei, é príncipe, está trabalhando o amadurecimento da alma. O conto nos mostra que o desejo vai além de um tríptico. Há seis desejos, ou seja, duas vezes um tríptico.


Biograficamente, podemos dizer que, no primeiro tríptico, nem a mulher nem o pescador tornaram-se adultos. No segundo tríptico, nem a mulher nem o pescador tornaram-se sábios. O desejo passou dos limites, excedeu, transbordou e, consequentemente, não permitiu que o linguado se transformasse em um ser humano novamente, ou no príncipe. O linguado não foi desencantado. O que será que este linguado fez para não conseguir se desencantar? e não encontrar as pessoas certas para ajudá-lo a se desencantar?


Abraços Libertadores!

Roberta Henriette






 
 
 

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