Episódio 06 — Branca de Neve
- robertahenriette
- 16 de jun.
- 4 min de leitura

O pulmão, o fígado e os pés: qual caminho escolho?
Esse conto se comporta de maneira diferente daquele padrão que conhecemos da Disney. Aqui, podemos perceber detalhes que nos levam em várias outras direções.
Lembrando que, em um conto de fadas, podemos ser todos os personagens, especialmente quando estamos em um processo terapêutico.
Podemos olhar para a história do feminino e para a relação entre as mulheres. Não há sororidade nesse conto. O que encontramos é: inveja feminina, escassez de amadurecimento, ausência de consciência e dificuldade de encarar a realidade.
Em versões mais antigas dos contos dos Grimm, a vilã nem sempre era a madrasta, mas a própria mãe biológica. Já pensou nisso?
Como foi, é, ou está sendo a nossa relação com a nossa mãe?
E com as outras mulheres das nossas relações? É para se pensar, não é?
Mas hoje quero chamar a sua atenção para alguns outros pontos.
A madrasta pede ao caçador não o coração de Branca de Neve, mas o pulmão e o fígado. Na Medicina Chinesa e em abordagens integrativas, o pulmão está relacionado à tristeza, ao medo e à insegurança; o fígado, à raiva, à irritação e à frustração.
Essa rainha ou madrasta revela um desequilíbrio, falta-lhe respiração, não acolhe, não integra. Há, nela, excesso de raiva, inveja e tristeza. Está aprisionada num padrão.
Ao comer o pulmão e o fígado de um urso, acreditando serem de Branca de Neve, revela sua dimensão mais visceral, devora aquilo que não consegue transformar em si mesma.
Branca de Neve, ao fugir, encontra os sete anões. Eles não possuem nomes infantilizados. Trabalham, são mineiros, retiram minerais das montanhas e, pelo que observamos, são organizados, atentos e dotados de bom senso.
No encontro de Branca de Neve com os anões, emerge um elemento central da narrativa: a sobrevivência. Ao ser acolhida, ela recebe uma condição clara, poderá permanecer ali desde que cuide da casa, mantendo o ambiente limpo, organizado e funcional.
Esse aspecto, aparentemente simples, revela uma dimensão simbólica, ou seja, a necessidade de colocar a vida em ordem para que ela possa ser sustentada.
Nesse contexto, os sete anões podem ser compreendidos como representações de funções processuais do próprio corpo humano.
A partir de uma leitura simbólica, esses personagens expressam os chamados Sete Processos Vitais, descritos por Rudolf Steiner em suas conferências, posteriormente organizadas em um pequeno livro disponível na Livraria Antroposófica.
Esses processos são fundamentais para a manutenção da vida e para o funcionamento saudável do organismo. Sem eles, a sobrevivência fica comprometida.
Os sete processos vitais são:
Respiração;
Aquecimento;
Nutrição;
Secreção;
Manutenção;
Crescimento;
Geração ou Reprodução.
Mais do que funções biológicas, são movimentos dinâmicos da vida no corpo. Atuam de forma integrada, sustentando o equilíbrio, a vitalidade e a continuidade da existência humana.
Assim, nesse encontro com os anões, Branca de Neve não encontra apenas abrigo externo, ela se reconecta, simbolicamente, com os seus próprios processos vitais. É um retorno ao essencial, um reencontro com aquilo que sustenta a vida.
Observe os verbos que expressam esses processos, pois são forças vivas que atuam continuamente em nosso corpo, promovendo movimento, integração e existência.
Respirar é abrir e fechar para o mundo, receber e devolver, estabelecer uma relação com o ambiente.
Aquecer é a regulação do calor corporal, entusiasmo, presença, vitalidade.
Nutrir é tudo aquilo que ingerimos, comida, experiências, impressões.
Secretar é produzir substâncias internas, elaborar, transformar o que foi recebido e expelir.
Manter é conservar a vida, ritmo, estabilidade, continuidade.
Crescer é desenvolver-se física e animicamente, amadurecimento, evolução.
Reproduzir é dar continuidade à vida, gerar, criar, deixar um legado, expressar-se no mundo.
Podemos observar, nesse conto, dois momentos de trípticos de encerramento para Branca de Neve.
O primeiro ocorre quando os anões velam o corpo de Branca de Neve por três dias e decidem não a enterrar, levando-a para a montanha. Na montanha, as aves choram e um novo tríptico se forma na simbologia das aves:
a coruja (sabedoria e consciência)
o corvo (morte, mistério e travessia)
a pomba (paz, reconciliação e esperança)
Então surge um príncipe que se apaixona por ela. Branca de Neve é carregada pelos servidores do príncipe, e o esquife quase cai, balança muito. Nesse movimento, o pedaço envenenado da maçã salta para fora de sua garganta.
A maçã estava atravessada na garganta de Branca de Neve. Podemos dizer que aqui acontece um auto nascer biográfico. Um despertar. Não foi digerido o que a envenenava. Não passa mais pelos 7 processos vitais. Acabou.
Outro ponto que nos chama a atenção é que ela encontra um príncipe, não um rei. Isso nos mostra que ainda há etapas a serem vividas, crescimento, desenvolvimento e ampliação da consciência para Branca de Neve.
Já a madrasta não completa seu ciclo. Não há, para ela, um tríptico biográfico. O ciclo não se fecha. Observe que, nessa versão do conto, há apenas duas tentativas de matar Branca de Neve: o encontro com o caçador e a maçã envenenada.
Outra marca desse não fechamento está na própria maçã, metade sem veneno, metade com veneno. É uma rainha madrasta em regeneração.
Se somos todos os personagens, o que ainda a rainha madrasta não aprendeu?
Mas o conto deixa uma pista. A rainha madrasta foi ao casamento de Branca de Neve, encarou a realidade, não fugiu. No casamento, ela utiliza os pés. Os pés indicam direção. E o calor que vem dos sapatos, está ligado ao segundo Princípio Vital: Aquecer que é a regulação do calor corporal, viver com entusiasmo, presença, vitalidade.
Perceba isso: a madrasta é condenada a calçar sapatos de ferro em brasa e a dançar até a exaustão. Ela aceitou tudo isso. Contorcendo-se de dor, dá seu último suspiro e sua alma vai para o inferno. Podemos pensar que a sombra não integrada conduz à autodestruição.
O essencial aqui é compreender que, quando não reconhecemos e não integramos a nossa sombra, ficamos aprisionados no sofrimento. Mas, penso eu, aqui, com meus alfarrábios de estudos e a prática fenomenológica dos atendimentos, que a rainha madrasta, nesse conto, mesmo sabendo da condição infernal da sua alma sombria, sente vontade de se regenerar e aceita trabalhar isso quando decide ir ao casamento de Branca de Neve, encarar todos e calçar os sapatos em brasa.
Para mim, o tríptico da rainha madrasta, em regeneração, é o pulmão, fígado e pés.
Mas a pergunta permanece para todos nós:
Que caminho escolho trilhar com aquilo que ainda não integrei em mim?
Sua biografia. Sua potência de vida.
Abraços libertadores!
Roberta Henriette


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