Episódio 08 — Rapunzel
- robertahenriette
- 14 de jul.
- 7 min de leitura
Atualizado: 28 de jul.

Corpo, voz e travessia
Neste conto dos irmãos Grimm, podemos reconhecer diferentes fases do desenvolvimento humano. Pela perspectiva da Biografia Humana, Rapunzel pode ser lida como uma imagem da passagem da infância para a adolescência e, depois, da adolescência para o início da vida adulta. O conto nos apresenta uma travessia entre essas fases da vida.
O fio que escolho puxar aqui é justamente o da travessia. Rapunzel é uma criança muito desejada pelos pais. Quando a mãe finalmente engravida, passa a desejar intensamente os rapúncios que vê no jardim da feiticeira.
O rapúncio é uma planta comestível, da espécie Campanula rapunculus. Essa característica já nos oferece uma primeira imagem importante. Pela perspectiva da Antroposofia e da Biografia Humana, relacionamos o reino vegetal ao corpo etérico, o segundo corpo que construímos depois do corpo físico. Também chamado de corpo de vida, o etérico sustenta o crescimento, a vitalidade e a formação contínua do organismo, incluindo os processos hormonais.
Na Biografia Humana, o corpo etérico se desenvolve especialmente durante o segundo setênio, dos 7 aos 14 anos. Nesse período, a criança cresce, forma e fortalece suas forças vitais e consolida ritmos, hábitos, memória e sustentação orgânica. Por isso, é significativo que Rapunzel receba o nome de uma planta.
Quando Rapunzel nasce, a feiticeira aparece e a leva consigo. A menina cresce sob os cuidados da Senhora Gothel. “Gothel” não é propriamente um nome, mas uma antiga forma regional alemã relacionada à palavra Gote, que significa madrinha ou madrinha de batismo. Em sua origem, o termo traz a ideia de uma mãe espiritual: uma mulher que assume uma função de cuidado, orientação e responsabilidade pela formação de uma criança. No conto, porém, essa função aparece de forma ambígua. Gothel protege, alimenta e cria Rapunzel, mas também a possui, controla e isola.
Gothel não permite que Rapunzel vá ao encontro do mundo. Quando a menina completa doze anos, é levada para uma torre no meio da floresta. A torre não possui porta nem escada. Há apenas uma pequena janela no alto.
Aos doze anos, Rapunzel encontra-se no limiar da puberdade. Seu corpo começa a deixar a infância. Podemos ler esse momento como uma imagem da chegada das primeiras forças sexuais, da menstruação e da maturação do corpo físico para a possibilidade de gerar vida. O corpo começa a se tornar biologicamente capaz, mas a consciência ainda não acompanhou inteiramente esse processo.
Essa é uma das grandes tensões da adolescência. O corpo anuncia uma nova possibilidade de existência antes que a alma tenha criado consciência suficiente para compreender o que fazer com ela. Surgem desejos, emoções e impulsos, mas ainda não há maturidade para lidar com tudo o que se movimenta internamente. O corpo amadurece enquanto a consciência permanece em construção.
A torre pode ser vista como uma imagem desse isolamento. Rapunzel está protegida e, ao mesmo tempo, aprisionada pela função Gothel. Essa função também pode aparecer internamente, nas formas de pensar, sentir e querer que procuram conter, sem compreender, as transformações próprias dessa fase da vida.
Podemos olhar para os cabelos de Rapunzel como uma imagem do pensar: das ideias, crenças e formas aprendidas de nos relacionarmos com a vida.
Rapunzel não enxerga uma porta de entrada ou saída da torre, mas possui uma longa cabeleira. O caminho para entrar e sair passa, portanto, por aquilo que vem de sua cabeça. Essa imagem nos leva ao ambiente familiar em que nascemos e às maneiras de pensar que aprendemos nele. Muitas vezes, permanecemos em nossas torres porque ainda estamos presos às crenças familiares, aos medos antigos, às proibições internas e às vozes que nos disseram como deveríamos viver.
É também no ambiente familiar que aprendemos a reconhecer e construir limites. Os pais e cuidadores são fundamentais nesse processo, mas aquilo que cada pessoa fará com o que recebeu pertence ao seu próprio caminho evolutivo e às suas experiências biográficas.
A torre pode representar uma proteção necessária durante determinado período da vida. Entretanto, aquilo que protege também pode aprisionar quando permanece além de seu tempo. A infância precisa de cuidado, contorno e limite. A adolescência, por sua vez, começa a pedir experiência, encontro, risco, descoberta e mundo. Surge, então, a necessidade de transformar a função Gothel em nossa vida.
Um ou dois anos depois, o príncipe passa pela floresta e ouve o canto de Rapunzel. Ele não a vê primeiro: ele a escuta. É a voz dela que o alcança.
A voz pode ser compreendida como uma imagem da expressão do adolescente, que começa a manifestar suas próprias opiniões e a fazer escolhas. Essa fase pode ser difícil tanto para os pais quanto para os adolescentes.
Ao mesmo tempo, essa voz interior começa a procurar um caminho. O jovem já não é apenas aquilo que os pais dizem, o que a família espera ou o que a infância organizou. Algo próprio começa a cantar dentro dele. Ainda pode haver medo e pouca clareza, mas já existe a necessidade de ser ouvido.
O príncipe retorna todos os dias à floresta para escutá-la. Depois, observando a feiticeira, descobre como subir na torre. Ele entra durante a noite, escondido de Gothel.
Nessa passagem do conto, podemos relacionar a atuação de Gothel à consciência cotidiana e às forças que procuram manter o controle. O príncipe, ao chegar durante a noite, aproxima-se de Rapunzel em um campo ainda inconsciente. O encontro amoroso acontece longe dos olhos da autoridade que vigia. Surgem a relação com o outro, o despertar do desejo, a intimidade, a sexualidade e o segredo.
Rapunzel se assusta ao vê-lo, mas, aos poucos, perde o medo. O príncipe fala com doçura, e ela percebe que pode amá-lo mais do que ama a velha Senhora Gothel. O centro de seus afetos começa a se deslocar da figura que a criou para uma relação escolhida. Inicia-se a formação de vínculos que brotam de sua própria individualidade.
Do ponto de vista biográfico, entramos, nessa fase do conto, no terceiro setênio, dos 14 aos 21 anos, período em que o corpo astral se organiza com maior intensidade. O corpo astral está relacionado às emoções, aos desejos, impulsos, medos, paixões, simpatias e antipatias, assim como às primeiras grandes experiências de confronto com o mundo.
Rapunzel começa a viver o encontro com o outro, mas ainda não possui plena consciência das consequências. Entra em contato com o amor, com o corpo e com a própria voz, embora permaneça dentro da torre. Ainda não encontrou um caminho próprio para sair. Continua dependendo dos cabelos, da noite e das visitas secretas do príncipe.
A feiticeira nada percebe até que Rapunzel, inadvertidamente, revela o que está acontecendo. Gothel compreende, então, que a jovem já não pertence inteiramente ao seu domínio. A punição é imediata: a feiticeira corta as tranças de Rapunzel e a envia para o deserto.
Cortar os cabelos significa romper a antiga forma de ligação com o mundo. A jovem, que não possuía uma porta, perde também os cabelos pelos quais o mundo chegava até ela. Antes mesmo de compreender a amplitude desse novo mundo, é lançada no deserto.
O deserto é uma imagem da travessia pela solidão, pela privação, pelo silêncio e pelo afastamento. Também pode representar transformação, amadurecimento e encontro consigo mesma. Em alguns momentos da adolescência, o jovem pode sentir-se exatamente assim: lançado em um lugar interno no qual ninguém parece compreender o que está acontecendo.
Muitos jovens não encontram com quem conversar sobre o que se passa dentro deles.
O corpo muda, o desejo aparece, as emoções se intensificam, os vínculos se transformam e os conflitos com pais e cuidadores aumentam. Há culpa, vergonha, curiosidade, medo e descoberta. Em muitos casos, a sexualidade ainda é cercada por silêncio, proibição, julgamento e crenças transmitidas pelas gerações anteriores.
Rapunzel é enviada ao deserto quando sua sexualidade é descoberta. Gothel não orienta, não conversa nem acolhe essa passagem. Nos processos biográficos, frequentemente aparecem lembranças de momentos em que não houve acolhimento diante da primeira menstruação, das transformações corporais ou das primeiras experiências sexuais.
O conto, porém, mostra que o deserto não é o fim. Rapunzel permanece ali durante alguns anos, enfrenta grandes privações e dá à luz seus filhos, um menino e uma menina. Somente no final descobrimos que sua relação com o príncipe havia gerado vida.
A experiência vivida na torre produziu consequências. A menina tornou-se mãe e foi lançada abruptamente em uma experiência adulta. Com a maternidade, chega também a responsabilidade
Enquanto Rapunzel vive no deserto, o príncipe também atravessa seu próprio caminho. Ao subir pela trança cortada, encontra a feiticeira no lugar de Rapunzel. Desesperado, joga-se da torre. Sobrevive, mas os espinhos ferem seus olhos. Ele fica cego e passa anos vagando pela floresta.
O príncipe, que antes seguia a voz e o encantamento, perde a visão. A entrada na vida adulta exige a passagem por uma queda. Ele não pode simplesmente conquistar Rapunzel e levá-la embora, como se a travessia dependesse apenas de uma ação externa. Precisa realizar um movimento interno, atravessar a dor e deixar-se transformar pelo tempo.
A cegueira pode representar a impossibilidade de enxergar a realidade. Na juventude, o encontro amoroso é muitas vezes vivido sob o encantamento, a idealização e o impulso. Vemos o outro, mas talvez ainda não consigamos perceber a totalidade da relação, suas consequências, seus limites e as responsabilidades que ela envolve.
O príncipe vaga por anos. Antes, vivia em um castelo com seus pais, um rei e uma rainha. Agora, percorre o mundo sem visão, até chegar ao deserto onde Rapunzel vive com os filhos.
Novamente, é a voz que o conduz. Rapunzel já não é a menina isolada na torre, e o príncipe deixou de ser apenas o jovem encantado por seu canto. Ambos foram transformados pela travessia.
Quando Rapunzel o reconhece, chora. Duas lágrimas caem sobre os olhos do príncipe, e ele recupera a visão. As lágrimas devolvem-lhe a capacidade de enxergar.
A cura acontece depois das experiências, das perdas e do amadurecimento. Embora a maioridade legal seja alcançada aos 18 anos, a consciência adulta continua a ser construída, biograficamente, entre os 21 e os 42 anos.
Rapunzel e o príncipe se reencontram em outro nível de consciência. Ele a leva, com os filhos, para seu reino, onde são recebidos “calorosamente”. O acolhimento, ausente durante toda a travessia, aparece no final do conto.
Podemos dizer, biograficamente, que Rapunzel nos fala da passagem da infância protegida para a adolescência desejante e, depois, para uma vida adulta que exige responsabilidade.
O conto apresenta o corpo que amadurece antes da consciência, a voz própria que procura um caminho, as crenças que aprisionam, as emoções que precisam ser compreendidas, os desertos de solidão e aprendizado e as lágrimas que, depois das experiências vividas, devolvem a clareza da visão.
Crescer e amadurecer fazem parte da travessia biográfica de todo ser humano.
Sua biografia. Sua potência de vida.
Abraços Libertadores!
Roberta Henriette



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